De escorpiões
A cidade cimentada, mesmo que com plantas simétricas, nos traz a ilusão de que o mundo lá fora não existe e que vivemos em eternas perfeições; das do tipo que compramos em supermercado. Desses, há tantos hoje que me esforço pra lembrar detalhes dos armazéns encantadores onde comprava bolachas maria no quilo. Saía da venda tilintando tamancos e beliscando delicias raras até virar a esquina de casa.
De ilusões, também tantas, vivi muitas pela vida afora, e, creio ser jeito meu de ser, custava reconhecer a realidade do que e quem me cercava. Como levando bolachas, segui feliz cumprindo o destino e me esforçando pra ser pessoa boa. É que dentre essas ilusões, a que me cercava a miúde era de que se fosse boa seria recompensada; se fizesse tudo certo não seria castigada; e seria amada. Coisa boa ser amada, né? Esse era meu jeito de pensar o mundo, e vivia de acordo.
Entre vírgulas e interrogações pela vida afora, chegou o momento, natural, de fazer a leitura da "coisa": pessoas não são o que parecem, eu junto, e mesmo que se tenha feito o certo, ou tentado, não haveria misericórdia se envolver interesse maior que o seu. No caso, pessoas nem se dariam ao trabalho de lhe explicar a paulada: você que se vire!! Pedido de desculpas, ou gesto de gratidão, não haverá: pode chorar, mas vai enxugar as lágrimas sozinha. E arrisca ainda ter que pagar a conta, lição inesquecível. Agora, que jamais esquecerá será o apelido jocoso, algo como "porca louca", que tal? Entendeu?
Sim; adeus às ilusões é nome de filme, ficção, mas que conta realidades, e pensa no tanto que é triste esse "filme". É triste, e mais, pode ser susto grande, surpreendente, ler realidades; o maior desafio humano? Mas de susto em susto pode-se aprender outro pedaço quando o real acontece no nosso mundo plastificado: já caia a noite quando tive que abrir a porta da área de serviço. Não entendi de imediato o que era aquela coisa dourada bem à frente. Precisei raciocinar para acreditar que aquilo ali era escorpião, e pertinho dos meus pés. Escorpião no meu mundo arrumado? Como é possível isso? De onde vem, e porque está aqui?
O que sei, por ora, é que é tempo de escorpiões.
Por Magda Castro
Brasília, DF, 15 de dezembro de 2025.
