segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

De escorpiões

A cidade cimentada, mesmo que com plantas simétricas, nos traz a ilusão de que o mundo lá fora não existe e que vivemos em eternas perfeições; das do tipo que compramos em supermercado. Desses, há tantos hoje que me esforço pra lembrar detalhes dos armazéns encantadores onde comprava bolachas maria no quilo. Saía da venda tilintando tamancos e beliscando delicias raras até virar a esquina de casa.

De ilusões, também tantas, vivi muitas pela vida afora, e, creio ser jeito meu de ser, custava reconhecer a realidade do que e quem me cercava. Como levando bolachas, segui feliz cumprindo o destino e me esforçando pra ser pessoa boa. É que dentre essas ilusões, a que me cercava a miúde era de que se fosse boa seria recompensada; se fizesse tudo certo não seria castigada; e seria amada. Coisa boa ser amada, né? Esse era meu jeito de pensar o mundo, e vivia de acordo.

Entre vírgulas e interrogações pela  vida afora, chegou o momento, natural, de  fazer a leitura da "coisa": pessoas não são o que parecem, eu junto, e mesmo que se tenha feito o certo, ou tentado, não haveria misericórdia se envolver interesse maior que o seu. No caso, pessoas nem se dariam ao trabalho de lhe explicar a paulada: você que se vire!! Pedido de desculpas, ou gesto de gratidão, não haverá: pode chorar, mas vai enxugar as lágrimas sozinha. E arrisca ainda ter que pagar a conta, lição inesquecível. Agora, que jamais esquecerá será o apelido jocoso, algo como "porca louca", que tal? Entendeu?

Sim; adeus às ilusões é nome de filme, ficção, mas que conta realidades, e pensa no tanto que é triste esse "filme". É triste, e mais, pode ser susto grande, surpreendente, ler realidades; o maior desafio humano? Mas de susto em susto pode-se aprender outro pedaço quando o real acontece no nosso mundo plastificado: já caia a noite quando tive que abrir a porta da área de serviço. Não entendi de imediato o  que era aquela coisa dourada bem à frente. Precisei raciocinar para acreditar que aquilo ali era escorpião, e pertinho dos meus pés. Escorpião no meu mundo arrumado? Como é possível isso? De onde vem, e porque está aqui?

O que sei, por ora, é que é tempo de escorpiões. 

Por Magda Castro

Brasília, DF, 15 de dezembro de 2025.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

SOSSEGO

Um dia sonhei viver em casa pequena com uma janela, ou duas, que se abrisse pra mato exuberante. E o som que ouviria seria o do vento, de preferência balançando as folhas das macaubeiras, e dos passarinhos cantando melodias de todo modelo. Dessa janela solteira eu poderia chegar ao céu depois que vigiasse colinas e depois montanhas. E o resto seria silêncio.

E, nessa manhã já passando pra tarde, abro uma janela, de muitas, da casa onde vivo, por décadas, e observo o jardim alagado da chuva da noite passada. Tem plantinhas em vasos brancos; numa parte do ano há muitos tipos de flores, noutra parte há o verde que amo. Vez ou outra descubro perfume, surpresa. Dessa janela posso chegar ao céu se ultrapassar a visão do muro, e percebo pássaros circulando estridentes entre fios e árvores antigas além.

Piso satisfeita as pedras do pátio e checo pragas. Retiro um tomateiro invadindo a amora recém plantada. No vaso de amarílis, as capuchinhas formam tapete, retiro. Sem sol nas raízes amarílis não floresce. A chuva fina me refresca delicadamente, e os sons da rua misteriosamente distanciam. Até os cotidianos pardais calam: ouço silêncio no mundo, e no meu coração.

Brasília, DF, 03 de novembro de 2025